Mensagens de Saudades

Você já prendeu o dedo numa porta? Isso dói, não dói? E bater o queixo no chão, dói? Um tapa. Um soco. Um pontapé. Doem, não? E morder a língua? Mas o que mais dói é a saudade! Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu.
Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas, mas a saudade mais dolorida é de quem se ama. Saudades da pele, dos beijos, do cheiro. Saudade da presença e até da ausência. Você podia estar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ficar um dia sem vê-lo. Ele, um dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade sem fim. Saudade é não saber. É não saber se ele ficou com gripe no inverno. Não saber se ela continua pintando o cabelo.
Se ele ainda usa a camisa que você deu. Se ela foi ao dermatologista como prometeu. Se ele aprendeu a entrar na internet. Se ela aprendeu a estacionar entre dois carros. Se ele continua dançando, se ela continua lhe amando. Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficam comprimidos. Não saber como frear as lágrimas diante da música. Não saber como vencer a dor do silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ele está com outra e ao mesmo tempo querer. É não saber se ela está feliz e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber quem se ama e ainda assim doer.

Ando com saudades de café com pão. De namorados dando beijinhos no portão. De pedir bênção a pai e mãe. (Deus te abençoe!) De ver um varal cheio de roupa, com cheiro apenas de sabão. De ver alguém sorrindo enquanto, lava a louça com bucha vegetal.
De sentir respeito pela polícia. De cantar o Hino Nacional, com mão no peito e lágrimas nos olhos. De acreditar que o Brasil ganhou a Copa do Mundo porque jogou direito. De saber que o Zezinho, filho do porteiro, não vai morrer de dengue. E que Maria feirante poderá ter um filho médico.
Saudades de homens que usavam apenas o assobio como galanteio. Fiu-fiu! Morro de saudades do tempo em que o presidente de uma nação era o mais respeitado cidadão do país. Que cadeia era lugar só de ladrão. Acho que andaram invertendo a situação. Ando com saudades de galinha de galinheiro. De macarrão feito em casa, com tempero sem agrotóxico. De só poder tomar guaraná em dia de festa. De homens de gravatas. De novela com final feliz. De pipoca doce de pipoqueiro.
De dar bom-dia à vizinha.
De ouvir alguém dizer obrigado ao motorista e ele frear devagarzinho, preocupado com o passageiro. Saudades de gritar que a porta está aberta para os que chegam. Saudades do tempo em que educação não era confundida com autenticidade.
Hoje, se fala o que quer em nome de uma "tal" verdade e pedir perdão virou raridade. Ando com saudades de ver no céu pipas não atingidas pelo efeito estufa. Saudades das chuvas sem acidez, que não causavam aridez. Saudades de poder viajar sem medo de homem-bomba.
De ser recebida com pompa em outra nação. Atualmente, reina a desconfiança no coração. Sinto muitas saudades do rubor das faces de minha mãe, quando se falava de sexo. Totalmente sem nexo Hoje, ele é tão banal que até eu banalizei.
Acho que a maior saudade que tenho é a saudade de tudo que acreditei. Para meus filhos não poderei deixar sequer a esperança. Hoje, já não se nasce criança!

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro encantado.
Ele era encantado por duas razões: não vivia em gaiolas, vivia solto e vinha quando queria, quando sentia saudades...

Sempre que voltava, suas penas tinham cores diferentes, as cores dos lugares por onde tinha voado.
Certa vez, voltou com penas imaculadamente brancas e contou histórias de montanhas cobertas de neve.
Outra vez, suas penas estavam vermelhas e contou histórias de desertos incendiados pelo sol.
Era grande a felicidade quando eles estavam juntos.

Mas, sempre chegava a hora do pássaro partir...
A menina chorava e implorava:
- Por favor, não vá. Terei saudades, vou chorar.
- Eu também terei saudades - dizia o pássaro - mas vou lhe contar um segredo! Eu só sou encantado por causa da saudade. É ela que faz com que minhas penas fiquem bonitas... senão você deixará de me amar.

E partiu.
A menina, sozinha, chorava.
Uma certa noite ela teve uma ideia: e se o pássaro não partir? Seremos felizes para sempre! Para ele ficar, basta que eu o prenda numa gaiola.
E assim o fez.

A menina comprou uma gaiola de prata, a mais linda que encontrou.
Quando o pássaro voltou, eles se abraçaram, ele contou histórias e adormeceu.
A menina aproveitou o seu sono e o engaiolou.

Quando o pássaro acordou deu um grito de dor.
- Ah ! O que você fez? Quebrou o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das histórias. Sem a saudade, o amor irá embora...
A menina não acreditou... achou que ele se acostumaria.

Mas, não foi isso o que aconteceu. Caíram as plumas e as penas transformaram-se em um cinzento triste.
Não era mais aquele o pássaro que ela tanto amava...
Até que ela não aguentou mais e abriu a porta da gaiola.
- Pode ir, pássaro - disse - volte quando você quiser...
- Obrigado - disse o pássaro - irei e voltarei quando ficar encantado de novo. Você sabe, ficarei encantado de novo quando a saudade voltar dentro de mim e dentro de você.

Quantas vezes aprisionamos a quem amamos, pensando que estamos fazendo o melhor?
Pense... deixar livre é uma forma singela de ter...

Direcione o seu amor não para a prisão e sim para a conquista, sempre.