Num mundo de moral inversa, onde contam os pequenos sentimentos, os grandes deslizes humanos, os desejos insanos e as incoerências do saber, ficou no céu uma estrela que brilha solitária.
A experiência conta, a solidariedade desponta e o carinho pesponta, mas é a amizade que vale a pena viver e curtir. Não sei o que seria de mim sem seu fraterno amor, amiga.
Quando fiquei praticamente isolada, sozinha sem saber o que fazer, foi você que nunca me abandonou, mesmo com tudo o que diziam e faziam... Foram tantas vozes que vociferaram absurdos que várias vezes pensei apenas em me calar e me tornar invisível. Mas você estava sempre me apoiando, me incentivando a permanecer de pé, mesmo que fosse para fazer número.
Agora que a verdade vem à tona e os falsos moralistas têm que engolir suas próprias tolas convicções, você está por perto a me dizer, com absoluta sabedoria, para me recolher.
É isto que farei, mesmo que o orgulho me diga para sapatear neste patê de gente e preconceitos que me fizeram amargar um rótulo nada palatável. Por isso, amiga querida, estrela que brilha com vigor mesmo em dia claro, esta declaração de amizade se faz necessária.
A você, amiga, estendo meus braços para abraçar-lhe em profundo respeito por tudo que fez por mim, nos maus e agora diferentes momentos. Ofereço-lhe este singelo, mas sincero gesto de muito obrigado.
Feliz o ser que tem o respeito e a amizade de alguém como você, amiga.
Certa vez houve uma inundação numa imensa floresta. O choro das nuvens que deveriam promover a vida dessa vez anunciou morte. Os grandes animais bateram em retirada fugindo do afogamento, deixando até os filhos para trás. Devastavam tudo o que estava à frente. Os animais menores seguiam seus rastros. De repente uma pequena andorinha, toda ensopada, apareceu na contramão procurando a quem salvar.
As hienas viram a atitude da andorinha e ficaram admiradíssimas. Disseram: "Você é louca! O que poderá fazer com um corpo tão frágil?". Os abutres bradaram: "Utópica! Veja se enxerga a sua pequenez!". Por onde a frágil andorinha passava, era ridicularizada. Mas, atenta, procurava alguém que pudesse resgatar. Suas asas batiam fatigadas, quando viu um filhote de beija-flor debatendo-se na água, quase se entregando. Apesar de nunca ter aprendido mergulhar, ela se atirou na água e com muito esforço pegou o diminuto pássaro pela asa esquerda. E bateu em retirada, carregando o filhote no bico.
Ao retornar, encontrou outras hienas, que não tardaram muito a declarar: "Maluca! Está querendo se heroína!". Mas não parou; muito fatigada, só descansou após deixar o pequeno beija-flor em local seguro. Horas depois, encontrou as hienas embaixo de uma sombra. Fitando-as nos olhos, deu a sua resposta: "Só me sinto digna das minhas asas se eu as utilizar para fazer os outros voarem".
Augusto Cury
A girafa é o animal que anda pela terra com o coração mais forte do mundo. Sabe por quê? Porque ela tem o maior pescoço de todos, e o coração precisa bater muito forte para conseguir fazer o sangue chegar à cabeça.
Como o coração da girafa bate muito forte, o som dele é ouvido por todos os outros animais. O coração da girafa é o coração da floresta, é como um tambor que dá ritmo ao reino animal.
Quando as girafas se deitam para dormir, a batida do seu coração faz o chão estremecer e alerta os seus colegas que é hora de dormir. O coração da girafa é quase como um relógio, mas o seu pulsar também embala o sono dos seus amigos.
Quando o coração de uma girafa para de bater e ela morre, os seus amigos todos sentem, porque a batucada dos corações das girafas já não tem mais a mesma força!
Assim é o amor. O amor é forte, o amor dá ritmo e alegria à nossa vida. O amor é o que embala os nossos sonhos e sonos tranquilos, é o que nos desperta para viver. Mas quando um amor acaba, sentimos que algo em nós também acabou de morrer.
Era engraçado porque, toda vez que ela me fazia sorrir ou rir, eu sentia uma vontade incontrolável de explicar pra ela o quanto eu a amava.
Elas se amontoaram diante da porta – duas crianças abandonadas em sujos casacos.
- Tem algum papel velho, senhora?
Eu estava ocupada. Eu quis dizer não – até que eu olhei para seus pés. Pequenas e gastas sandálias, ensopadas com a chuva. - Entrem e eu farei uma xícara de chocolate quente para vocês.
Não houve nenhuma conversa. Elas deixaram as marcas das sandálias encharcadas sobre a soleira e todo o chão da sala.
Eu as levei até a cozinha e lhes servi chocolate quente e torrada com geleia tentando fortalecê-las contra o frio do lado de fora.
O silêncio na cozinha me atravessava. A menina segurava a xícara vazia em suas mãos. O menino perguntou, - Senhora... Você é rica? - Se eu sou rica? Com certeza, não!
Eu olhei para minha surrada toalha sobre a mesa. A menina colocou sua xícara de volta ao pires – cuidadosamente. - Sua xícara combina com seu pires. Ela disse com uma voz velha, com uma fome que não era do estômago.
Então as crianças partiram, levando seus pacotes de papéis velhos contra o vento. Elas não disseram obrigado. Não precisavam. Elas tinham feito mais que isto.
Eu fritei minhas batatas e terminei o molho de carne. Batatas e molho de carne... Um teto sobre nossas cabeças... Meu marido com um bom e estável emprego. Estas coisas combinavam, também.
Coloquei as cadeiras no lugar, apaguei o fogo e arrumei a sala. As impressões barrentas de pequenas sandálias ainda estavam pelo chão. Eu as deixei lá.
Eu quero que as marcas estejam lá para o caso de eu me esquecer novamente do quanto sou rica.