E ela começa assim:
Hoje está fazendo um mês e meio que você, mesmo contra a vontade de todos, partiu deixando em cada um de nos, pedaços de uma saudade que nos atormenta demais. Agora mesmo fui ao seu quarto e lá tive a impressão de vê-la brincando com a boneca que carinhosamente a chamava de Lili.
Filha, nós estamos vivendo somente de lembranças e remoendo por todos os cantos da casa, um pouco de tudo o que você deixou. Aqui e acolá encontro recordações e mesmo sem querer, tanto encontrar a angustia que faz questão de me acompanhar. De vez em quando até parece que estou segurando sua frágil mãozinha para você das os primeiros passos e ouvir balbuciar primeiras palavras tentando dizer, papai mamãe. Por falar em papai, todos os dias o surpreendo com seu retrato na mão e como não poderá ser diferente chorando também.
Filha, a escola onde você estudava, está por pura precaução, fechada e as crianças usando máscaras cirúrgicas para evitar uma tragédia como a que aconteceu com nossa família.
- E carta termina, entre outras coisas dizendo:
Meu tesouro, a dor que estamos sentindo é tão grande que chega a derrete a saudade enchendo os nossos olhos de lágrimas pela falta irreparável de você.
Querida, onde você estiver, não se esqueça de que te amamos demais, demais, demais...
Beijos de sua mamãe.
Que eu tenha...todo o entendimento para praticar o amor
que eu seja sereno e veja sempre o melhor desse mundo
que eu seja paciente ao ritmo do universo e compreensivo aos seus caprichos
que eu saiba quem sou e nunca me afaste da minha missão
que não me tentem o poder e a arrogância e se me tentarem que eu seja firme
que eu esteja em paz para não negar o meu sorriso
que eu tenha o entusiasmo apaixonado dos raros
que meus atos me tornem especial e único
que meu ofício me torne necessário
que minha alegria seja iluminada e sedutora
que meus sonhos encontrem sempre seguidores
que meu corpo seja um santuário para a vida que me habita
que eu tenha disciplina para purificar meu corpo e meus atos
que eu tenha disposição e profundidade para o amor
que a preguiça não me corrompa
que eu saiba atravessar ereto este mundo hostil
que a minha transparência seja entendida sem rancor, raiva, inveja ou desconfiança
que as dores que me causam sejam justificadas com a luz que me proporcionam
que deus me ilumine e
que minha vida, a cada dia, valha a pena.
Amar não é conviver fisicamente com alguém.
O fato de as pessoas viverem juntas, no mesmo espaço geográfico, não constitui uma relação amorosa.
O Amor quer sentir que a pessoa, que vive ao nosso lado, está viva e vibrante, que não é apenas um robô de carne e osso ou um boneco de plástico.
As pessoas sem vida frustram o Amor, porque ele quer sentir a vida pulsando. Ele quer que a outra pessoa se abra para nós, que seu coração olhe para nós, nu de pretensões, barreiras e arrogância.
Quer que a outra pessoa olhe para nós sem os olhos escuros e opacos da indiferença.
O Amor não quer que o outro fique fechado, que fique bloqueado. O Amor exige que as resistências evaporem-se e que os olhares se encontrem. Quer ainda que, nesse encontro, cada um possa entrever, nem que seja por curtos segundos, a profundidade do mistério do Ser do outro. Este é o começo da entrega mútua!
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Mãe Natureza criadora de infinitos seres e devoradora implacável de tantas vidas.
Conheço as tuas trilhas e os teus inúmeros disfarces e sei que, por toda parte, lanças as tuas diferentes armadilhas de sedução e morte.
Por que abates os teus filhos? Será que é para que tu possas de novo renascer?
Nelson Barh