E de repente, num dia qualquer, acordamos e percebemos que já podemos lidar com aquilo que julgávamos maior que nós mesmos. Não foram os abismos que diminuíram, mas nós que crescemos.
Mestre o vento balançou meu barco
Mestre estou a beira de um naufrágio
Mestre será que não vê
Será que eu vou perecer
Sinto na pele o frio desse vento
Chego a crer que não estas me vendo
Lembro que estas logo ali
Na broa do meu barco a dormir
Eu sei que não estou só
E já posso crer que amanhã vai ser bem melhor
Só porque estas comigo eu
Posso clamar eu acredito que eu não vou naufragar
Só porque estás comigo eu
Posso clamar já tenho fé pra descansar
Nas ondas de um bravo mar
Sim eu posso clamar
Mestre vem me ajudar
Quem é esse que até o vento e o mar lhe obedece
Quem é esse que ordena e o milagre acontece
Jesus o seu nome toda língua confessará
Jesus toda terra se prostra pra te adorar
Jesus o presente que Deus enviou pra nós
Jesus até o vento se cala pra ouvir tua voz
Posso clamar...
A sua lembrança me dói tanto
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal
Mas só sei dizer
Um verso banal
Fala em você
Canta você
É sempre igual
Sobrou desse nosso desencontro
Um conto de amor
Sem ponto final
Retrato sem cor
Jogado aos meus pés
E saudades fúteis
Saudades frágeis
Meros papéis
Não sei se você ainda é a mesma
Ou se cortou os cabelos
Rasgou o que é meu
Se ainda tem saudades
E sofre como eu
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor
Já me esquece
Chico Buarque
Ao voltar de um exaustivo dia de caça, trazendo segura nos dentes uma pequena corça, a onça encontrou sua toca vazia. Imaginando que os filhotes estivessem nas imediações, pôs-se a procurá-los com diligência. Olhou e examinou cada canto, sem encontrá-los.
Preocupada com a demora que se tornava séria, desesperou-se e tomada de pânico esgoelou-se em urros que encheram de espanto toda a floresta. Uma anta decidiu indagar a respeito da ocorrência. Chegando junto da toca, viu a onça desatinada e então, jeitosamente, procurou saber dela sobre o que estava acontecendo.
– Devoraram-me os filhotes! – gemeu a onça. – Infames caçadores cometeram friamente o maior de todos os crimes: mataram os meus filhos...
A anta conciliadora, porém franca, não deixou que a oportunidade se passasse sem que ela dissesse à onça certas verdades que embora dolorosas, careciam ser ouvidas por ela naquele momento. Então falou-lhe:
– Mas senhora onça, se analisar bem o fato, há de convir que suas acusações não procedem. Perdoe-me a franqueza, nessa hora de desespero. Respeito a sua dor, mas devo dizer-lhe que fizeram uma vez aquilo que a senhora pratica todos os dias. Não pode negar que vive sempre a comer os filhotes dos outros, não é verdade? Ainda agora acabou de abater uma corçazinha...
Tomada de indignação, a onça arregalou os olhos como que espantada pela coragem e atrevimento da anta, falando com um ódio mortal: – Oh, estúpida criatura! É isso que você tem a dizer para consolar o meu coração ferido pela dor? Com que direito você se atreve em comparar os meus filhos com os filhotes dos outros? E como pode comparar o meu sofrimento e desolação ao dos demais? É preciso considerar primeiro a minha posição, em relação à dos outros animais, para depois pesar a situação...
Foi nesse momento que um velho macaco, que bem do alto do seu galho assistia ao diálogo, falou como quem está revestido de autoridade: – Amiga onça, é sempre assim: A dor alheia só atinge aos altruístas, mas jamais ao egoísta...
Nenhum amor pode ser chamado de impossível, pois tudo pode acontecer quando estamos dispostos a lutar por esse sentimento que transcende nossa alma.
Impossível é apenas quando abaixamos os braços ou desistimos de o querer na nossa vida. Até lá, ele pode quebrar barreiras e vencer qualquer obstáculo. Basta acreditarmos, por mais remotas que sejam as possibilidades.