Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda
Ninguém te amou... Como eu te amei... Ninguém te quis...
Ninguém fez loucuras por você... Como eu fiz e não foram poucas... Ninguém lhe ama... Como eu amo...
Um amor incondicional Tudo que faço é pensando... Pensando em você, Pois é tudo para mim, minha vida
Se o pouco que tinha, era nada Agora o que fazer Se tudo acabou, acabou não sei Algo aí, dentro do seu peito, deve ter ficado
Um olhar, um beijo, um abraço Algo deve mostrar, que fui puro Puro no sentimento Agora o que faço, jogo este amor fora?
Desde aquele beijo roubado Até aquele "você sabe o que vou dizer"... De alguma forma foi-me importante Estou só, e a solidão dói.
Os dias que passam na vida São como os pingos Da chuva que cai E correm para o rio E sem o seu amor Sou uma pobre abandonada Chorando desesperada Em uma noite de frio
Angustiada pela dor de uma saudade Sinto minha alma ferida Vejo minha vida esquecida Mesmo não sendo correspondida Falo com toda ansiedade que preciso de você Para minha felicidade
Ah! Se você soubesse O que eu estou sentindo agora Talvez não sofreria tanto Mandava a tristeza embora Mas sei que você não entende O sofrimento de uma mulher Por isso, no silêncio da noite Murmurando sozinha Eu chamo pelo seu nome
O tempo vai passando Nunca vou te esquecer Porque você é tudo Em minha vida É a razão do meu ser Não me importa a distância E mesmo sendo esquecida Ainda me resta uma viva esperança Que em seus braços um dia vou viver.
Não é o mais brilhante,
mas é o mais sutil,
delicado e penetrante dos sentimentos.
Não importa o tempo, a ausência,
os adiantamentos, a distância,
as impossibilidades.
Quando há AFINIDADE,
qualquer reencontro retoma a relação,
o diálogo, a conversa,
o afeto, no exato ponto
de onde foi interrompido.
AFINIDADE
é não haver
tempo mediante a vida.
É a vitória do adivinhado sobre o real,
do subjetivo sobre o objetivo,
do permanente sobre o passageiro,
do básico sobre o superficial.
Ter AFINIDADE é muito raro,
mas quando ela existe,
não precisa de códigos
verbais para se manifestar.
Ela existia antes do conhecimento,
irradia durante e permanece depois que as
pessoas deixam de estar juntas.
AFINIDADE
é ficar longe,
pensando parecido a
respeito dos mesmos fatos que
impressionam, comovem, sensibilizam.
AFINIDADE
é receber o que vem
de dentro com uma aceitação
anterior ao entendimento.
AFINIDADE
é sentir com...
Nem sentir contra, sem sentir para...
Sentir com e não ter necessidade de
explicação do que está sentindo.
É olhar e perceber.
AFINIDADE
é um sentimento singular,
discreto e independente.
Pode existir a quilômetros de distância,
mas é adivinhado na maneira de falar,
de escrever,
de andar,
de respirar...
AFINIDADE
é retomar a relação
no tempo em que parou.
Porque ele (tempo) e
ela (separação) nunca existiram.
Foi apenas a oportunidade dada (tirada)
pelo tempo para que a maturação
pudesse ocorrer e que cada
pessoa pudesse ser cada vez mais.
Arthur da Távola
O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você..." A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina.
Não aprendi isso nos livros.
Aprendi prestando atenção. Todos reunidos alegremente no restaurante: pai, mãe, filhos, falatório alegre. Na cabeceira, a avó, com sua cabeça branca. Silenciosa. Como se não existisse. Não é por não ter o que dizer que não falava. Não falava por não ter quem quisesse ouvir. O silêncio dos velhos.
No tempo de Freud as pessoas procuravam os terapeutas para se curarem da dor das repressões sexuais. Aprendi que hoje as pessoas procuram os terapeutas por causa da dor de não haver quem as escute. Não pedem para ser curadas de alguma doença. Pedem para ser escutadas. Querem a cura para a dor da solidão.
Rubem Alves