Um homem muito rico morreu e foi recebido no céu. O anjo guardião levou-o por várias alamedas e foi mostrando-lhe as casas e moradias.
Passaram por uma linda casa com belos jardins. O homem perguntou: - Quem mora ai?
O anjo respondeu: - É o Raimundo, aquele seu motorista que morreu no ano passado.
O homem ficou pensando: - Puxa! O Raimundo tem uma casa dessas! Aqui deve ser muito bom!
Logo a seguir surgiu outra casa ainda mais bonita. - E aqui, quem mora? Perguntou o homem. O anjo respondeu: - Aqui é a casa da Rosalina, aquela que foi sua cozinheira.
O homem ficou imaginando que, tendo seus empregados magníficas residências, sua morada deveria ser no mínimo um palácio. Estava ansioso por vê-la.
Nisso o anjo parou diante de um barraco construído com tábuas e disse: - Esta é a sua casa!
O homem ficou indignado. - Como é possível! Vocês sabem construir coisa muito melhor.
- Sabemos – respondeu o anjo – mas nós construímos apenas a casa. O material são vocês mesmos que selecionam e nos enviam lá de baixo. Você só enviou isso!
Cada gesto de amor e partilha é um tijolo com o qual construímos a eternidade. Tudo se decide por aqui mesmo, nas escolhas e atitudes de cada dia.
O homem aproximou-se do espinheiro. Ergueu a mão para tocá-lo e um "ai!" de dor brotou de seus lábios.
Um rubi de sangue brilhou no seu dedo. O homem limpou o sangue e disse fitando o espinheiro: – Eu te perdoo!
Admirei e louvei dentro de mim aquele homem que possuía o doce dom de perdoar.
E aconteceu que veio outro homem. Parou junto ao espinheiro, ergueu a mão para tocá-lo, e o espinho o picou. Mas o homem limpou em silêncio a ferida, contemplou com amor o espinheiro, e não disse: – Eu te perdoo!
Tive, então, este pensamento: – O primeiro homem era um santo: sabia perdoar!
Este outro não sabe! Mas o meu Senhor, interrompendo a minha cisma, disse: – Quem não sabe é você! – Como, Senhor? Então o primeiro homem... – Sim, é um santo, porque perdoou quando foi preciso! – E o segundo? – É mais santo ainda, porque não tem necessidade de perdoar.
E como eu ficasse perplexo, com o olhar perdido na incompreensão e na dúvida, o Senhor me disse: – O espinheiro fere, porque é espinheiro. Ainda que ele quisesse jamais poderia perfumar.
O primeiro homem sentiu a dor da picada, e como não sabia nada, atribuiu a culpa ao espinheiro. Mas, como era puro de coração, perdoou.
O outro homem sentiu a mesma dor, mas como sabia que todo espinheiro fere, pois o espinheiro é assim, não se sentiu ofendido. E como nada tinha a perdoar, não perdoou.
Desde então sofro menos quando os espinhos me ferem. Dói-me na alma a ferida, mas minha alma sabe que não há ofensa. E como não há ofensa, não há perdão.
É assim que do meu peito brota um piedoso amor pelo espinho que não chegou a ser flor. Meu sofrimento se transforma em ternura porque já aprendi a não perdoar!
Senhor, agradeço-vos pelo pai e pela mãe que me destes e os quais tanto admiro em meu coração. Fazei que eu os ame sempre mais e que eles se sintam amados. Aumentai-lhes as alegrias e não permitais que eu me torne um peso para eles. Ajudai-me a adivinhar suas horas de cansaço e preocupações, para que eu possa servi-lhes de "Cirineu".
Não deixais, Senhor, que os desenganos os abatam, ou desânimo os domine. Ajudai-os a enfrentar, com renovada coragem, suas responsabilidades e a se desincumbir delas do melhor modo possível. Que eles sejam firmes e severos quando necessário, sem deixar de serem bons. Que eles não se percam na impaciência, mas saibam perdoar minhas fraquezas. Que eu não repare, Senhor, em seus defeitos, mas em suas qualidades, e que eu saiba não só admirar seus bons exemplos, mas imitá-los.
Conservai-os, ó Deus, no Vosso amor. E que nossa família, vivendo agora unida, sob seus cuidados e as Vossas bênçãos, possa também viver unida no céu, para cantar Vosso nome, ó Pai dos pais.
Confie em Deus acima de tudo, pois Ele estará presente quando mais ninguém estiver. O poder Dele não tem limites e será usado em nosso benefício nos momentos mais angustiantes da nossa vida.
Deixe-se guiar por Ele, procure uma orientação superior à dos homens. Deus sabe o que é o melhor para nós e sempre nos mostrará o caminho que devemos seguir.
Enquanto pequenos, tudo gira em torno da nossa família mais próxima. Tudo é mãe, pai, irmãos quando existem. Todo o nosso mundo parece convergir para o seio pequeno e confortável daquele grupo.
Aos poucos nos vamos revoltando contra esse núcleo, e o vamos culpando por tudo o que de mal começa a acontecer em nossas vidas. As hormonas da juventude se apossam de nós.
Mais tarde, ainda que mais calmos, a vida continua a atirar todo o tipo de obstáculos, desafios e distrações no nosso caminho, e nos vamos afastando, nos vamos esquecendo desse seio em volta do qual em tempos girou nosso mundo. E esquecemos de visitar, esquecemos de cuidar, esquecemos de dizer 'te amo'!
E quando lembramos do esquecimento, quantas vezes não é já tarde demais, e aqueles que verdadeiramente nos amaram, e a quem nunca deixamos de amar, apenas esquecemos de o dizer, foram chamados para junto de Deus.
E então resta apenas a saudade.
Ficam as memórias. Fica o amor que será eterno. Fica o desejo impossível de um retorno. Fica a presença metafísica e constante daqueles que então se transformaram em anjos. Fica o insustentável peso da saudade, a única que nunca morrerá.