Eu não sei como, mas você consegue fazer com que eu me apaixone cada vez mais por você, mesmo que eu pense que isso não é possível, que não tem jeito de caber mais amor aqui dentro.
Tanto que fazer!
livros que não se leem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem pra quê.
Cecília Meireles
O sentimento mais profundo do amor é aquele que nos completa com muito pouco. O amor é algo que preenche cada espaço vazio do nosso ser. E é tão bom encontrar alguém que possa dar razão a todo esse amor. O amor é o único caminho da felicidade. A paixão é o único caminho da incerteza. O apego só leva a sentimentos ruins. A solidão é o resultado de todo o amor que você tinha para dar e não deu.
Quando você dá amor, mesmo que em pensamentos, indiretamente, você está atraindo pessoas boas e amorosas para perto de você. E todas aquelas pessoas que não lhe completam, que só servem como um peso de papel na sua vida, vão embora; porque você percebe que elas não servem para você, e assim, você as liberta para que elas possam voar, e talvez, completar quem realmente as mereça.
Antônio Reis
Há momentos na vida em que somos pássaros. Queremos voar, mas nossas asas são curtas e não nos permitem chegar além do horizonte. O que podemos está sempre aquém do que desejamos.
Há momentos na vida em que temos longas asas. Podemos alçar extensos voos, mas nossos limites são determinados pelo peso das bagagens que a vida nos dá. São malas que atendem por diversos nomes: Bom senso, juízo, medo. Há os que se livram de seu peso e conseguem voar muito alto. Alguns atingem destinos fantásticos. muitos conhecem o sabor do desastre.
Mas há momentos na vida em que deixamos de voar. É quando nos tornamos árvores, quando nos percebemos enraizados a terra, presos no espaço e no tempo. Não nos damos conta desta mudança, que nos tira as asas e nos empresta galhos e ramos. Apenas descobrimos que somos assim. Mas quando deixamos de procurar a luz, ou desistimos de cavar em busca de energia, paramos de crescer. Mas não há árvores assim. As árvores perseguem seu destino, que é crescer e se alimentar. Assim como há pássaros que só buscam voar.
Saber o momento do voo ou o instante de se enraizar é a grande sabedoria humana. Saber viver intensamente o momento de polinizar as flores, ou o momento de deixar ao vento e a chuva que espalhem nossas sementes, eis o destino da vida.
Se você é pássaro, voe em busca de seu sonho. Se você se descobriu árvore, cresça o mais alto que puder e deixe a terra cuidar de suas sementes.
Eu era pequena ainda quando um novo bebê chegou à nossa casa. Certamente devia alegrar-me com o irmãozinho porém os cuidados e atenções com que nossos pais cercavam encheu-me de ciúmes e muitas vezes chorava ao pensar que tinha perdido o carinho antigo.
Vovô cultivava uma horta nos fundos de nossa casa. Em certo dia em que eu estava mais envenenado de ciúmes do que nunca, ele me chamou. Fui ver o que queria. Estava de cócoras junto a um canteiro onde semeara alface. As mudinhas, de um verde muito tenro, brilhavam à luz daquela manhã límpida e tranquila. Vovô, mergulhado no trabalho de separar, delicadamente, as mudinhas, não parecia ter percebido a minha emoção. Ele me disse:
– Preste atenção! Estou separando as mudinhas e, depois, irei plantá-las no lugar certo. Sabe, filho, o carinho é como a alface: precisa ser dividido para crescer melhor. Quando eu era da sua idade gostava muito de minha mãe. Fiquei rapaz e, um dia, conheci uma jovem, casei-me com ela e tivemos um filhinho.
Depois veio outro e outro. Mas, cada um que chegava não tirava nem um pouquinho do outro. O amor é uma coisa muito curiosa, quanto mais é dividido mais cresce e mais forte se torna. Seu pai e sua mãe estão ocupadíssimos com o bebê porque ele é pequenininho, frágil e desamparado. Mas pode crer que o amor que tinham por você ainda se tornou maior...
À medida em que eu via os pés de alface crescendo, belos e exuberantes, uma nova alegria nasceu em meu coraçãozinho ciumento. O carinho de papai e mamãe, dividido, crescia também, a cada dia, como aquela planta que tivera de ser dividida para que uma muda não sufocasse a outra.
Muitas vezes, depois disso, quando me perturbava o desejo de posse exclusiva, o canteiro de vovô parecia se retratar em minha mente, dando-me uma nova perspectiva de paz e serenidade.
Quanto mais dividido, mais forte e mais profundo se torna o amor. Nunca pude me esquecer disso...