Mesmo separados, permanecemos juntos! É dessa forma que encaro sua partida para um outro mundo, meu irmão. É claro que vou sentir sua falta, aliás, já dói agora.
É que a saudade vai estar sempre próxima do meu coração, mas o desejo de manter seu nome vivo é agora minha grande missão de vida. E pode ter certeza que vai ser totalmente cumprida, querido irmão! Até um dia.
Escuta, meu amigo...
A qualquer hora em que chegares, sentarás comigo à minha mesa... A qualquer hora em que bateres à minha porta, meu coração também se abrirá...
A qualquer hora em que chamares, eu me apressarei... A qualquer hora em que vieres, será o melhor tempo de te receber...
A qualquer hora em que decidires, eu estarei pronto para te seguir... A qualquer hora em que quiseres beber, eu irei à fonte...
A qualquer hora em que te alegrares, eu bendirei ao Senhor... A qualquer hora em que sorrires, será mais uma graça que o Senhor me concede...
A qualquer hora em que partires, eu irei à frente do caminho... A qualquer hora em que chegares, eu estenderei os braços...
A qualquer hora em que te cansares, eu levarei a cruz... A qualquer hora em que te sentires triste, eu permanecerei contigo...
A qualquer hora em que te lembrares de mim, eu acharei a vida mais bela... A qualquer hora em que partires, ficarás como a suave lembrança...
A qualquer hora em que voltares, renovarás todas as minhas alegrias... Eu te digo tudo isso, meu Amigo, porque não posso imaginar uma amizade que não seja de todos os instantes e para todo o sempre...
Estamos distantes e ao mesmo tempo tão perto... A amizade que nos une pode vencer todas as distâncias. Ela sim é mais forte que o tempo. Ela sim poderia atravessar a imensidão do espaço e transcender os limites da vida.
Sim, como ela é forte! Pois essa amizade nada nem ninguém destruirá. Que perdure enquanto nossas almas existirem. Que nem a distância, nem o tempo e nem mesmo os nossos erros, terminem a nossa amizade.
Nada é mais valioso do que ela.
A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido, embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou para mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.
Simone de Beauvoir
Numa aldeia vietnamita, um orfanato dirigido por um grupo de missionários foi atingido por um bombardeio.
Os missionários e duas crianças tiveram morte imediata e as restantes ficaram gravemente feridas. Entre elas, uma menina de oito anos, considerada em pior estado. Era necessário chamar ajuda por um rádio e, ao fim de algum tempo, um médico e uma enfermeira da Marinha do EUA chegaram ao local. Teriam de agir rapidamente, senão a menina morreria devido aos traumatismos e à perda de sangue. Era urgente fazer uma transfusão, mas como?
Após alguns testes rápidos, puderam perceber que ninguém ali tinha sangue para doar. Reuniram as crianças e entre gesticulações, arranhadas no idioma, tentavam explicar o que estava acontecendo e que precisariam de um voluntário para doar sangue. Depois de um silêncio sepulcral, viu-se um braço magrinho levantar-se timidamente. Era uma menino chamado Heng. Ele foi preparado as pressas ao lado da menina agonizante e espetaram-lhe uma agulha na veia.
Ele se mantinha quietinho e com o olhar fixo no teto. Passado algum momento, ele deixou escapar um soluço e tapou o rosto com a mão que estava livre. O médico perguntou-lhe se estava doendo e ele negou. Mas não demorou muito a soluçar de novo, contendo as lágrimas. O médico ficou preocupado e voltou a perguntar-lhe novamente, e novamente ele negou. Os soluços ocasionais deram lugar a um choro silencioso, mas ininterrupto. Era evidente que alguma coisa estava errada. Foi então que apareceu uma enfermeira vietnamita vinda de outra aldeia. O médico pediu que ela procurasse saber o que estava acontecendo com Heng. Com a voz meiga e doce, a enfermeira foi conversando com ele e explicando coisas e o rostinho do menino foi se aliviando...
Minutos depois ele estava novamente tranquilo. A enfermeira então explicou aos americanos:
- Ele pensou que iria morrer, não tinha entendido direito o que vocês disseram e achava que ia ter que dar todo seu sangue para a menina não morrer.
O médico aproximou-se dele e, com a ajuda da enfermeira, perguntou:
- Mas, se era assim porque você se ofereceu para doar sangue?
E o menino respondeu:
- Ela é minha amiga...