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Este incidente se passou durante a primeira guerra americana, quando um oficial mandou seus soldados cortarem algumas árvores para fazerem uma ponte.
Não havia homens suficientes, e o trabalho progredia muito lentamente.
Um homem de aparência imponente, que estava passando a cavalo, falou com o oficial responsável quando este dava ordens aos subordinados, mas ele mesmo não fazia nada.
- Você não tem homens suficientes para o trabalho, não é?
- Não, senhor. Precisamos de ajuda.
- Por que você mesmo não põe mãos à obra? – perguntou o homem no cavalo.
- Eu, senhor? Por quê? Sou um cabo – respondeu o oficial, aparentemente ofendido com a sugestão.
- Ah, é verdade – respondeu o outro calmamente e, descendo do cavalo, pôs-se a trabalhar com os homens até estar concluído o serviço.
Depois, montou novamente e, enquanto saía, falou para o oficial:
- Cabo, da próxima vez que tiver uma tarefa a cumprir e poucos homens para o serviço, avise ao comandante superior, e eu tornarei a vir.
Este era o general Washington.
Bom dia!

Eu queria realmente ser um anjo! Ser o anjo que vela, o anjo que guarda, o anjo que protege... Quebrar todas as barreiras e ser apenas um anjo. Mas não é permitido a um anjo, amar uma única pessoa. Seu amor não pode ser exclusivo. Seu amor deve ser extensivo... Não é permitido a um anjo chorar por todas as pessoas. Seu pranto é exclusivo.
Que anjo eu posso ser? Que amor eu poderei dar? Que olhos irão me ver? A quem eu irei amar?
Eu queria tanto ser um anjo! Ter a bondade nas faces, a sabedoria no olhar. Saber sorrir, saber confortar. Saber entender aos aflitos, saber ensinar. Ir ao encontro de todos... Um anjo qualquer! Um anjo comum! Atender as preces dos necessitados. Atender a procura de afeto de uma criança. Um anjo que aprende com a dor. Um anjo que aprende com o amor...
Beijar a face daquele que suplica. E serenar a raiva do inimigo cruel. Por fim, eu queria ser um anjo...
E poder quebrar todas as regras celestiais. Sentir o amor único e exclusivo. E chorar por todos os demais... "Eu queria somente ser um anjo!"

Atitudes muito simples, às vezes assumem um significado muito grande para nós. Ontem estávamos na sala em silêncio, eu fingindo ler o jornal e você espiando a televisão. Num recinto de poucos metros quadrados, eu e você calados, parecíamos estranhos. Num momento, você levantou-se e ao encaminhar-se a cozinha, passando por mim, me fez um ligeiro carinho na cabeça e beijou-me os cabelos. Eu que estava tão absorto, senti a presença do amor, palavra que para mim parecia ter sumido dos dicionários.
Entretanto esse seu singelo gesto me trouxe novamente à realidade, lembrando-me que o amor ainda estava presente, e surgia soberano, mesmo naquele nosso tácito silêncio. Se eu estivesse sozinho em casa, com certeza estaria vivendo um momento de tédio absoluto.
Mas a sua significativa atitude, me fez ver que não estava só, e a presença de minha mulher trouxe-me a mais absoluta sensação de conforto. Um sentimento tão grande que, tudo o que pudesse estar acontecendo fora das paredes de nosso apartamento, a mim parecia ser supérfluo, desnecessário, absolutamente descartável.
Minha querida mulher estava tão próxima, flutuando em nossa casa, fazendo-me lembrar que o nosso amor ainda estava vivo e soberano. Escrevi para dizer que adoro estar com você em qualquer circunstância, em qualquer lugar a qualquer hora. Ver nosso amor reinar no pequeno espaço de nossa intimidade, é para mim ser absolutamente feliz.

Que sentido teria a vida sem você? Sem o seu amor, sem esse belo sorriso teu, sem essa sua simplicidade, sem esse seu encanto, sem a sua voz para me acalmar, sem você para me abraçar, sem você o que teria sentindo? Nada. Sem você meu mundo é triste, sem você eu me sinto perdida em um mundo de solidão. Mas com você aqui eu me sinto completa e realizada, com você aqui minha vida faz sentido, meus dias são mais coloridos. Tudo com você é tão perfeito, tão maravilhoso.

Não amaremos talvez insuficientemente a vida? Já notou que só a morte desperta os nossos sentimentos? Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?! Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós, durante a vida inteira. Mas sabe porque nós somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres.

É assim o homem, tem duas faces. Não pode amar sem se amar. Observe os seus vizinhos, se por acaso acontece um falecimento no prédio. Dormiam na sua vida monótona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaixão.
É preciso que algo aconteça, eis a explicação da maior parte dos compromissos humanos. É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte. Vivam, pois, os enterros!

Albert Camus