Querida avó, como eu queria que você soubesse o quanto me dói vê-la desse jeito, tão sozinha nesse mundo confuso em que essa horrível doença a afundou. Suas memórias foram roubadas, quase tudo aquilo que você foi um dia, desapareceu. Seus olhos se perdem nos nossos rostos, nas faces daqueles que tanto amam você e a quem você já não reconhece os traços.
A doença de Alzheimer lhe roubou em vida os seus anos de descanso, e a impede de sentir o amor que a rodeia. Todos sentimos impotência e tristeza, pois nada pode ser pior que uma pessoa em vida ser despojada de todo o seu mundo interior! Há momentos em que parece que seu olhar recorda uma imagem, mas logo depois regressa a confusão e as perguntas intermináveis.
A doença levou de você a lembrança de quem você foi, mas de nós jamais apagará as recordações da extraordinária mulher, esposa, mãe, avó, tia, prima, amiga... que você foi! Eu, e todos que amamos você, a recordaremos tal como você foi, e não o que a doença fez de você. Para sempre a vou amar, minha querida avó!
Eu me experimento inacabado. Da obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina.
Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo,
O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.
Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. É nesta hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis.
Mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil.
Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão.
Eu sou inacabado. Preciso continuar.
Se a mim for concedido o direito de pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim. Um dia sou multidão; no outro sou solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só. Eu sou assim. Sem culpas.
Padre Fábio de Melo
Me pegou desprevenido esse seu jeito simples de ver as coisas. Nem eu, todo complicado, parecia ser um obstáculo pra você. Por várias vezes me peguei inseguro, pensando antes de falar e mesmo quando falava alguma besteira, onde qualquer ser ficaria indignado e me repreenderia, você dava risada, me desarmava e me deixava com cara de bobo, como se fosse tudo normal. Sua inocência me conquistou, me deixou com vontade de protegê-la de todos mal intencionados que existem por aí.
Ser professora é muito mais do que transmitir o conhecimento.
É aquela que ensina com dedicação e paciência, é aquela que quebra os nossos galhos, aquela que quando tudo está difícil abre um sorriso e diz: calma, você vai conseguir.
É agir com simplicidade, com companheirismo, está sempre disposta a te ajudar a qualquer hora, enfim todas essas características se resume em você, não é a toa que podemos afirmar que você não é nossa professora e sim uma grande amiga.
Parabéns pelo seu dia!
Eu quero estar com você, não porque eu deva estar ou porque todos queiram, mas porque eu prefiro estar contigo a estar em qualquer outro lugar no mundo inteiro.